Em MS, cada pessoa consome cerca de 40 litros de agrotóxicos por ano

O consumo por habitante no Brasil é de cerca de 7 litros por ano, quantidade bem abaixo do consumo específico no Estado, mas ainda sim preocupante

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Cada morador do Mato Grosso do Sul consome em média 40 litros de agrotóxicos por ano, segundo dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) apresentados na segunda-feira (17), na Assembleia Legislativa, durante o seminário Impactos dos Agrotóxicos na Sociedade. O evento foi promovido pelo deputado federal Zeca do PT em parceria com os deputados estaduais Amarildo Cruz (PT) e Pedro Kemp (PT).

O consumo por habitante no Brasil é de cerca de 7 litros por ano, quantidade bem abaixo do consumo específico no Estado, mas ainda sim preocupante, pois o país é o que mais usa agrotóxicos no mundo. “O alto uso em Mato Grosso do Sul e Mato Grosso já foi capaz de contaminar todas as nascentes da Bacia do Rio Paraguai, ou seja, todos os rios do Pantanal estão afetados com resíduos e isso causa problemas em toda a cadeia produtiva e aumenta o risco de doenças, como câncer, má formação de fetos e problemas neurológicos”, alertou o médico e pesquisador da Universidade Federal de Mato Grosso, Wanderley Pignati.

O câncer é a segunda causa de morte no Brasil e também no mundo, segundo a pesquisadora e toxicologista do INCA (Instituto Nacional de Câncer José Alencar Gomes da Silva), órgão do Ministério da Saúde, Márcia Sarpa de Campos Mello. A toxidade pode ser aguda, quando atinge o trabalhador direto do produto com dores de cabeça, náuseas e vômitos ou toxidade crônica, com doenças que afetam os sistemas imunológico, hormonal e central ao longo do tempo, além de órgãos vitais como fígado e rins. “Não existe ingestão de agrotóxico diária aceitável. Não existe limite seguro de exposição. É necessário fim dos subsídios aos venenos e se há proibição fora do país, por que não são proibidos no Brasil?”, questiona.

Ainda segundo o INCA a venda de agrotóxicos no país saltou de US$ 2 bilhões para US$ 8,5 bilhões em 2011. Segundo o pesquisador da Fundação Oswaldo Cruz, Luiz Cláudio Meirelles, 12 agrotóxicos no Brasil foram banidos, dois estão em processo de revalidação e 15 estão mantidos a venda com restrições. “São registradas em média 14 mil intoxicações no país por ano, mas esse dado é apenas a ponta do iceberg, pois as notificações não chegam a 3% do casos ocorridos. Além disso, 50% das empresas hoje não estão vinculadas ao sistema de devolução de embalagens. Para onde será que vão as não devolvidas? É muito preocupante”, ressaltou.

Com a alta do dólar aumenta a preocupação com a entrada ilegal de produtos não aprovados no país. “O uso indevido de agrotóxicos ‘piratas’ pode resultar de três a quatro anos de prisão, quando associado ao crime de contrabando com a compra irregular. A apreensão na fronteira de Mato Grosso do Sul tem rivalizado com a de cigarros e drogas”, destacou o procurador do MPF (Ministério Público Federal), Marco Antônio de Almeida.

Orgânicos

A opção de alimentos livres de agrotóxicos está no consumo de orgânicos, porém a oferta ainda é restrita. “As propriedades já perderam o equilíbrio natural, então é muito demorado para recuperar e poder implementar o sistema orgânico de produção, integrado com a natureza. É preciso apoio técnico e incentivo do Governo aos produtores para superar a fase de transição e partir para o orgânico, porque é claro que se você explicar os benefícios ao consumidor ele vai preferir comer o nosso produto, mas o preço também precisa ser bom. Enquanto a oferta for pequena ainda vai custar mais caro”, resumiu o presidente da Associação dos Produtores Orgânicos de Mato Grosso do Sul, Olácio Komori.

A estudante de Biologia da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, Sara Maria Sguissardi, presenciou o seminário para entender mais sobre os riscos do uso dos agrotóxicos. “Sou vegetariana e me preocupo muito. Pretendo me formar e trabalhar com orgânicos e sistemas agroflorestais sustentáveis. A monocultura ainda é muito forte no Estado e acaba sendo mais compensador do que diversificar a plantação com os orgânicos, mas isso precisa mudar”, ponderou a estudante.

Leis

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Atualmente o uso de agrotóxicos é regulado em nível federal pela Lei 7802/1989 e em nível estadual pela a Lei 2.951/2004. Como resultado do seminário os deputados estaduais petistas Pedro Kemp e Amarildo Cruz afirmaram que vão recolher as sugestões dos palestrantes e participantes para formularem novas leis estaduais que restrinjam o uso de agrotóxicos.

“Hoje a agricultura é muito alicerçada no uso dos agrotóxicos e precisamos regular para que seja ao menos um uso mais racional. Vamos pensar em alternativas para que no futuro possa até ser algo eliminado”, explicou Kemp. “Conseguimos compreender o quanto afeta, por exemplo, a aplicação de veneno via aeronave. Vamos estudar formas de maior fiscalização, rigor e controle, além de incentivar políticas públicas e a promoção de estudos que mostrem a qualidade da água consumida e dos alimentos. Temos, ao menos, o direito de saber”, concluiu Amarildo.

No Congresso Nacional, o deputado federal Zeca do PT prometeu que também irá acolher propostas do seminário para apresentar como projetos de lei. “Uma das boas sugestões foi confiscar as fazendas pegas com agrotóxicos contrabandeados para que se tornem objetos para reforma agrária. Vamos sistematizar as ideias, estudar a viabilidade e apresentar em breve”, finalizou o deputado.

Texto: Fernanda Kintschner – ALMS

Imagens extraídas do blog Outras Palavras